Incrivel Tunisia - Conhecendo o Deserto do Sahara

Postado por Babi Silva , quinta-feira, 1 de abril de 2010 14:07

Depois de 12 dias confinada no maravilhoso Hammammet, saímos para conhecer a Tunisia. A conferencia foi realizada num complexo turístico. Havia muitas feiras, parque de diversões e tudo me fazia lembrar que eu estava numa verdadeira Medina (cidades milenares árabes). Claro que eu sabia que tinha sido criado para “Gringo se sentir nas arábias”.  Porém os dias de conferencias foram tão intensos que não conseguimos aproveitar nada. No dia anterior à nossa despedida, descobri que ficávamos a 2 quadras do Mar Mediterrâneo. Como assim, estou a 2 quadras do Mediterrâneo e nem percebi! Por isso, no final da última festa fiz questão de ficar até o final e ir ver o sol nascer no Mar Mediterrâneo.

Porém, depois das conferencias internacionais  sempre acontecem os famosos “Study Tours”, uma excursão feita pelos organizadores do evento. O mais interessante desses Study Tours, além de ter alguém nos guiando pelos melhores lugares da cidade, estamos entre AIESECos. Nesse caso da Tunisia, éramos 36 pessoas de pelo menos 25 países diferentes.  Finalmente iria conhecer a Tunisia.

Saimos a noite da Medina Hammammet e viajamos toda a madrugada até uma cidade ao centro do País. Ficamos em um hotel, que não era o luxuoso hotel da conferencia, mas era bem confortável. No dia seguinte saímos e fomos visitar ruínas no meio do deserto do que um dia foi uma cidade árabe. 

Meu primeiro contato com o deserto do sahara. No caminho para as ruínas vimos os primeiros camelos selvagens correndo. Eram dezenas e todos juntos fizemos um uníssono “OOOHHHH”. Fora isso, era areia que não acabava mais. De repente, avistamos um  Oasis. E realmente é um alívio para os olhos ver tantas palmeiras e vida no meio de tanta areia. Chegamos às ruínas e o guia nos explicou que a cidade, foi uma importante cidade à séculos atrás, mas foi destruída por uma tempestade que durou 6 dias. Como no deserto não chove, as casas são feitas de areia.  Logo depois fomos visitar melhor o oásis. É lindo ver uma nascente saindo de pedras no meio do deserto. Depois do oásis, fomos a uma feirinha local. Meu primeiro contato com comerciantes árabes de verdade. Logo percebi que eles colocam o preço bem mais alto não só porque somos “Gringos”, mas também porque são ótimos negociantes e gostam de ter uma margem de negociação.




Depois disso, almoço árabe. Comemos um sanduba com carne de carneiro. Ah, que saudade dos almoços em Hammammet com dezenas de opções. A ansiedade em conhecer o país era maior, então nem ligamos. Depois do almoço fomos conhecer um cânion, deserto e mais feirinha... Depois disso iríamos conhecer o local onde foi filmado Star Wars.




Sanduba com a galera. Ao meu lado está um chico (esqueci o nome dele) de Togo, em frente à ele é a Cris da Espanha, ao lado da Nat do Panamá e Glori de Costa Rica.



Bah, nem lembro do filme direito. Já tava meio cansada de ver tanta areia em um único dia, que não estava muito animada para esse último passeio. Não estava esperando grande coisa, mas quando chegamos um outro “ooohhh”  foi inevitável. A cidade construída há mais de 30 anos para as gravações, ainda está intacta. Pudemos andar entre as casinhas construídas para o filme. No mesmo instante as lembranças do filme se fizeram bem claras e me senti em Star Wars. Onde está a Princesa Leia e o robozinho R2D2? Meu preferido, na época.

Aí também foi meu primeiro contato real com camelos. Paguei 3 dinares (1 dólar) para dar uma voltinha em um... Eram dois camelos, um amarrado ao outro e o guia ia puxando a gente...Quando olhei o guia puxando pensei. “Ah, assim não tem graça! Quero guiá-lo sozinha, deve ser como cavalo só que mais alto. Quando estava subindo percebi que não era assim tão fácil, porque o camelo está deitado, daí subimos, daí ele se levanta com a gente em cima dele... E quando estava em cima, percebi que ele balança muito mais que um cavalo...Ah, essa corcova só atrapalha... Que bom que tem o guia puxando os dois camelos...
Enquanto tentava me equilibrar em cima do camelo, conseguia observar melhor as dunas e a cidade cenográfica. 

Que ótimo, dia perfeito, já podemos voltar. Não! Ainda tem passeio de moto pelas dunas. Uhuuu! Esse estava incluído no pacote do study tour. Então esperei minha vez e la fui eu, com outros 4 companheiros dar uma volta nas dunas do deserto do sahara em uma moto. Agora não estava mais me sentindo em Star Wars e sim em Mad Max. Depois do passeio de moto, enquanto esperava todo o grupo fazer o mesmo, decidi subir uma grande duna onde já haviam outras pessoas... Chegando La no alto não acreditei... A  paisagem era incrível. Por todos os lados que olhávamos só víamos dunas e mais dunas... Sentem-me ali com os outros e ficamos admirando o por do sol...
No dia seguinte saímos cedo do hotel. O Ellas, conhecido como Elias, nosso guia, apenas disse, “façam uma mochila com o essencial para uma noite”. Vamos dormir no deserto! Todos estavam ansiosos e apreensivos. Que será que nos espera? Um camping no deserto deve ser bom... Ah, que ótimo estar num grupo com gringos, assim eles irão preparar algo para gringo ver e não iremos passar perrengue.  Antes do deserto iríamos conhecer outro oásis. Porém, era um oásis artificial. Não artificial, mas ele é do tamanho de uma pequena cidade e se fosse esperar pela natureza, ele seria bem menor. Os nativos regam as árvores 2 vezes por semana, e fazer por eles mesmo a reprodução das palmeiras. Eles sobem na palmeira macho, tiram galhos com pólen, depois sobem na palmeira fêmea e colocam o pólen nas frutas. Assim, eles aceleram e aumentam as chances de sucesso do processo. Fora isso, tinha um senhor explicando as maravilhas das bananeiras. O Oásis parecia muito uma pequena mata tropical. Nada muito diferente do que há no Brasil e em outras partes da América Latina. Assim nós latino americanos ficamos zoando dos europeus para passar o tempo. Eles ficavam tirando fotos e mais fotos das bananinhas nos cachos e tirando foto de palmeiras...

Depois disso, passeio de charrete até à cidade... Conhecemos outra Medina real. Imaginem 36 estrangeiros numa Medina... Tentávamos negociar o preço em inglês e os comerciantes tentavam se comunicar com a gente... Dizem que os árabes falam inglês. Na verdade eles sabem algumas palavras-chave em inglês. Não só em inglês, mas em quase todos os idiomas. Para conquistar o cliente eles soltam algumas palavras em quase todos os idiomas tentando adivinhar qual falamos e assim nos atrair para a tenda deles.  E funcionava, quando ouvia um “Oi, fala português? Brasil? Rio de Janeiro?” era fatal, já olhava para o lado e pronto, eles começavam a oferecer tudo que tinham em menos de 5 segundos. Quando perguntava o preço já vinha a resposta típica: “Tell me your price my friend”.  E assim passamos a tarde aprendendo a negociar com os comerciantes árabes. Voltamos para o ônibus cheios de lembranças, todos tinham pelo menos um lenço no pescoço.

Seguimos viagem rumo ao camping no deserto. No meio do caminho, parada para ver o salar. Um mar de sal. Linda paisagem pra fotos, mais comerciantes vendendo suas lembrancinhas e pronto, seguimos viagem. Umas 4 horas depois do salar, já estávamos ao sul do país, quase fronteira com Algéria.

O ônibus parou e disse: “Peguem só o essencial”. Ai ai ai, o que é essencial para uma noite no deserto? Só pude pensar em água. Comprei 2 garrafas de 2 litros, minha câmera, uma muda de roupa. Pronto. Descemos do ônibus e nos deparamos como o “Camel Stop”, parada de camelos. Escolha o seu e siga viagem. Eram centenas deles.... Ah, esse aqui parece ser muito alto, esse aqui tem cara de cansado, esse aqui... De repente, só vi um dos guias de camelo me chamando. Chamando não, ele estava me puxando pelo braço.  “Get up!” “Up!!” “Fast”! Tá bom, to subindo...Ih, La vem o frio na barriga de novo. Camelo deitado levanta primeiro as patas de trás. Quase caio pra frente, levanta as patas da frente, me equilibro e pronto.  Esse tem corcova muito alta!Enquanto vou me acostumando com a altura e aprendendo a me equilibrar em cima do camelo, vou vendo os outros na aventura de subir em um camelo. O “Uooouuuu” é inevitável a todos que sobem.

Poucos minutos depois começamos o passeio rumo ao camping. Era uma manada (não sei o coletivo de camelo) de camelos.  Eram 2 ou 3 camelos juntos, guiados por um árabe com lenço na cabeça.  Nessa hora pensei:”Caramba, estou no deserto! Tenho que me proteger do sol”. No deserto é quente, mas é seco, então a gente não sua e se a gente não sua, a gente nem percebe tanto o calor. Só o Sol queimando. Olhei para trás e vi todos meus companheiros colocando seus lenços comprados recentemente na Medina, na cabeça. O meu estava no pescoço e logo tratei de colocá-lo na cabeça também. Ficamos nessa viagem por quase 2 horas. Já tinha me acostumado com o balanço do camelo. Já tinha dado nome pra ele. Era o sheik. No meu grupo havia uma colombiana e uma russa. Ficávamos fazendo piadas sobre os camelos e ensinando palavras feias em espanhol para a Russa. De repente, percebemos que o sol estava se pondo ao nosso lado direito. Uau que lindo! Nesse mesmo instante alguém grita: “Look! The moon!”. A lua estava nascendo ao nosso lado esquerdo. Foi a lua cheia mais linda que vi em minha vida. Era enorme, bem maior que o sol. Foi um momento mágico. Nós, no meio do deserto vendo as incríveis cores do por do sol de um lado e a enorme e brilhante lua nascendo do outro.

Já era noite quando paramos. Estava claro por causa da lua. Olhamos para os lados e nos perguntamos: “Cadê o camping?”. Não tinha nada... só areia e mais areia... Descemos dos camelos e eles se foram... Calma, peraí e agora? Vamos dormir aqui? Não... seguimos a pé a partir de agora... Caminhamos mais uns 20 min e avistamos as barracas. Eram tendas armadas no meio da areia, não barracas de verdade. Abaixo da tenda areia e em cima da areia colchões.  Mal colocamos nossas coisas nas barracas já ouvimos o grito do Elias, “Let´s GO” . Pra onde? Bom, segui o grupo... Caminhamos uns 10 min e avistamos uma grande tenda. Era nosso jantar. Ficamos à luz da lua e das velas, a mesa era baixa e sentamos no chão (areia) para comer. O Menu: Cuscuz Tunisiense, com cordeiro.  Perguntei onde teria banheiro para lavar as mãos. Me olharam como se tivesse dito uma ofensa. Pô tem 2 horas que estou em cima de um camelo fedorento, cheia de areia na mão, quero lavar para comer! Ah, porque fui esquecer meu álcool na barraca? Ao final consegui um pouco de água para lavar a mão. O jantar estava magnífico. Voltamos às nossas barracas... Não tinha luz, mas tinha a lua... Não tinha banheiro, mas tinha uma tenda com uma caixa/privada dentro.
Fizemos 2 fogueiras cada uma com umas 15 pessoas... Começamos a  contar histórias e percebi quão privilegiados éramos quando cada um começou a contar coisas típicas de seu país. Pela proximidade e relacionamento que criamos nesses 15 dias, às vezes nos esquecíamos que éramos de países diferentes, que tínhamos histórias diferentes... Depois começaram a contar piadas. Como pode ser que uma piada sem graça cruza o mundo? De repente ouvi um Russo contando as mesmas piadas sem graça que ouvia quando era criança. Depois outra piada que ouvia quando era criança, agora contada por uma garota da Dinamarca... É... piada é uma coisa poderosa... Cruza o mundo, se infiltra na nossa cultura sem a gente perceber e sem sofrer muitas alterações...

Fui pra outra fogueira e percebi que tínhamos visitas. Eram 2 jovens. Perguntei de onde eram e ouvi um “Brazil”. Uai sô, você fala português! Falo uai! Uai, você fala mineirês! Foi uma risada só... Claro que os outros presentes não entenderam nosso diálogo. Eram 2 mineiros de Juiz de Fora. O Victor estava na sua última semana de intercambio na Tunisia e sua irmã veio visitá-lo e acompanhá-lo de volta pra casa.  Eles iriam fazer um mochilão pela Europa. Passamos boas horas falando sobre choques culturais, dicas de como viver bem em Tunez  (capital da Tunisia) e bons lugares para visitar, falou sobre sua experiência em trabalhar numa empresa de tecnologia em Tunez, como era seu dia-a-dia tentando se comunicar em Frances/árabe que os tunisianos falam, de suas aventuras durante o intercambio e do futuro agora que estava voltando para o Brasil.

No dia seguinte bem cedo (ao nascer do sol) levantamos acampamento. Pegamos nossas coisas e seguimos fomos ao mesmo lugar onde jantamos. Ali comemos nosso café da manhã. Logo depois os camelos chegaram. Obaaa, mais 2 horas em cima de um camelo. O retorno foi bem tranqüilo e sem surpresas... Foi uma alegria quando avistamos nosso bom e velho ônibus. Mais 8 horas de viagem rumo ao norte do país de volta pra Tunez. No caminho paramos em outras medinas, conhecemos uma tribo de aborígenes que vivem em casas feitas abaixo da terra. Uma maneira primitiva e muito inteligente de se proteger do clima do deserto. Por ser abaixo da terra, as casas mantêm uma temperatura média de 25 graus. Mesmo que do lado de fora esteja 50 graus durante o dia ou -5 graus durante a noite. 

Chegando em Tunez percebi o poder de negociação dos Tunisianos. O Elias nos conseguiu uma diária em um hotel à beira mar. O hotel era tipo 3 estrelas. Perguntei a diária e o rapaz da recepção me disse: 120 dinars quarto duplo. Uau! Isso é o que quero gastar em toda a viagem! Logo depois veio o Elias e ele me disse: “Não, nós vamos pagar 20 dinars”. Que?! Sim, de 120 para 20 dinars por uma diária em um lindo hotel com uma linda vista para o Mar Mediterrâneo. É, tenho que aprender a negociar com esse povo...
O Study tour terminou dia 1 de março e meu vôo estava marcado para o dia 6 de março. Cinco dias a mais na cidade de Tunez. O que fazer por tanto tempo na cidade e sem gastar muito?
Conto um pouco mais da minha aventura em Tunez no próximo post.

Um mergulho cultural - Encontro Internacional de Presidentes da AIESEC

Postado por Babi Silva , sábado, 20 de março de 2010 18:12

Minha primeira responsabilidade como futura responsável pela AIESEC na Bolivia, foi participar do encontro internacional de presidentes da AIESEC. Esse ano o encontro aconteceu na Tunisia.

A conferencia já prometia ser inesquecível apenas pelo seu formato. Dez dias com 150 pessoas, de pelo menos 100 países diferentes, aprendendo mais sobre como é ser responsável por uma AIESEC em um país. Como alinhar todos os comitês locais, planejar estratégias para garantir a qualidade de experiência para todos os quase 50 mil membros da AIESEC pelo mundo. Além disso, ter a oportunidade de conhecer, interagir e conhecer um pouco a cultura de mais de 100 países.

Foram 10 incríveis dias de capacitações com grandes empresas como DHL, Ingersol entre outras, sobre liderança, planejamento estratégico, gerenciamento de equipe etc. Dias de planejamento sobre os novos direcionamentos que a AIESEC terá nos próximos anos e foi onde também aconteceu a eleição para a nova diretoria Internacional. Escolhemos o novo presidente da AIESEC Internacional para a gestão 2010-2011.

Um dos momentos mais incríveis do evento foi quando simulamos o mapa-mundi com os representantes de cada país. Cada um representando o posicionamento geográfico de seu país. De repente, dentro do auditório percebemos quão privilegiados éramos em ter quase o mundo inteiro representado em um pequeno espaço. 

O mundo inteiro estava ali, ao alcance de nossas mãos.  Foi interessante perceber também as distancias geográficas e assim, entender bem diferenças e similaridades culturais. Os representantes dos países Europeus apertados por representarem suas dezenas de pequenos países, o representante da Russia com um espaço gigante. Perceber as distâncias geográficas da Africa e como uma cultura de um país pode ser totalmente diferente um do outro.  Ver a Nova Zelandia e a Austrália solitárias, isoladas do resto do Mundo. Islandia la no alto, no gelo, sozinha, quase esquecida pelo mundo. Ao mesmo tempo perceber que o mundo não precisa ter fronteiras e nem diferenças políticas e culturais. De repente, ver o representante da China ao lado do representante de Taiwan, conversando sobre dia-a-dia e cultura, esquecendo-se das diferenças e conflitos históricos.

Num segundo momento, cada representante ia até um país à sua escolha, conversar com o representante daquele país para entender um pouco mais sobre ele. Fui até o Egito e foi incrível ouvir de um Egipcio o que ele achava de ter nascido em uma terra milenar. Ele falou sobre seu orgulho de ser Egipcio, orgulho de sua cultura, de sua historia e de sua frustração ao ver que um país que tinha uma importância tão grande no mundo há milênios atrás, hoje não ter representatividade mundial. E como, apesar de ter sido um país tão avançado para sua época há milênios atrás, hoje se encontra estancado, vivendo de um passado remoto. Falou também de sua vontade em mudar um pouco essa realidade. Querendo manter essa valorização e orgulho por sua história, mas mostrando que os Egipcios ainda são capazes de oferecer inovações para o resto do mundo.

Outras pessoas vinham até os representantes do Brasil perguntar um pouco mais sobre nossa cultura e historia. Algumas pessoas perguntaram por que o Brasil mesmo sendo tão grande geograficamente e tendo tanta diversidade cultural não tinha conflitos internos.  A representante do Brasil apenas respondeu: É porque somos brasileiros. Quando voltei do Egito e me contaram essa historia, comecei a pensar: Realmente, alguns países bem menores que o Brasil, possuem diferenças culturais enormes, falam as vezes 2 ou até 3 idiomas distintos e possuem fortes conflitos internos políticos, religiosos e culturais.

E nesse mergulho cultural, pude perceber quão privilegiado nós, brasileiros, somos. Claro que temos problemas, como qualquer outro país. Porém, não temos grandes desastres naturais. Durante minha viagem à Tunisia aconteceu o terremoto no Chile e pude acompanhar de perto a aflição dos chilenos presentes, que não conseguiam contatar seus familiares e amigos para saber se estavam bem.  O Brasil não tem terremoto, não tem vulcões, conflitos internos por causa de diferenças políticas, religiosas ou culturais. Somos brasileiros! Sim, somos alegres, receptivos, educados e inteligentes. Temos problemas internos, violência, tráfico de drogas, políticos corruptos, mas somos brasileiros. E com todas as pessoas que conversei, pude perceber a admiração que eles possuem pelos brasileiros. Somos admirados pela capacidade de conversar com todos sem se preocupar com diferenças culturais, a capacidade de ser alegre, mesmo em situações não favoráveis. Somos admirados por viver em um país naturalmente lindo, acolhedor e até certo ponto seguro para visitar. Não temos guerras! Somos admirados pela capacidade que temos em demonstrar nossos sentimentos. Pela capacidade que nós temos de chorar de alegria e de tristeza, de abraçar sinceramente, de dar um forte aperto de mão. Coisas tão naturais para nós brasileiros, mas tão desafiador para certas culturas. Ouvi histórias de pessoas que nunca tinham recebido um abraço na vida. Pessoas que haviam chorado apenas quando crianças, culturas que educam que demonstrar sentimentos é feio.

Também percebi como no fundo no fundo, somos da mesma espécie. Percebi como, independente do país, origem, religião ou cultura, todos temos medo de errar, temos inseguranças quanto ao desconhecido, ansiedade sobre o futuro, necessidade de atenção, amor e carinho. Podemos ter idiomas, historias, religiões e culturas completamente diferentes, mas todos somos seres humanos.  Perceber quão igual somos, me deu um sentimento de pertencimento do mundo.  

Tenho certeza que os 150 participantes desse evento possuem esse mesmo sentimento de unidade  e pertencimento e tenho certeza que com esse sentimento, é impossível haver intolerância, que é a causa de tantas guerras e conflitos. A AIESEC foi criada em 1948 por 7 estudantes de vários países da Europa que, inconformados com a 2ª Guerra, decidiram criar uma associação que promoveria o entendimento cultural entre países através de intercâmbios, conferencias e comunicação entre seus membros, para evitar futuras guerras. O entendimento e conhecimento sobre a cultura do outro, aumenta o respeito e diminui a intolerância. Acabando com a intolerância, promovemos a paz entre as nações. 

A AIESEC foi criada há 62 anos com a missão de promover a paz e desenvolver o potencial humano.  Depois da conferencia pude sentir o real impacto dessa missão, a responsabilidade de ser multiplicadora e perceber que sim, é possível. Sinto orgulho de fazer parte disso tudo.

A conferencia foi apenas o inicio da minha viagem para o mundo. Logo depois partiria em um tour pela Tunisia, passagem relâmpago em Milão e outra incrível conferencia internacional no Peru. Mais detalhes nos próximos posts. 


2010 - Apenas começando

Postado por Babi Silva , quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 22:31

2010 promete

Fiquei um tempo sem postar aqui no blog, então vou atualizar todas as incríveis coisas que me aconteceram nos últimos meses. O ano de 2010 está sendo um ano muito especial pra mim e vou tentar dar uma resumida.

Tive 2 mineiros de Juiz de Fora trabalhando comigo na Fundação Vida Plena. Eles vieram fazer intercambio pela AIESEC também. Além de colegas de trabalho, foram meus companheiros nas horas vagas. Não tinha tempo ruim, eram pau pra toda obra. Era só fazer o pedido e pronto, já tinha companhia. O problema foi meu espanhol que ficou pior depois que eles chegaram, já que não tinha como evitar falar o bom e velho português. Com a companhia deles, aproveitei para conhecer mais o país. Os bolivianos são mais tranqüilos e não gostam muito de viajar e sair. 

Com Thiago e Mariana, os 2 brasileiros, passei o réveillon em Copacabana do Lago Titicaca.  Um dos lugares mais lindos que eu já conheci. Copacabana é uma vila às margens do imenso Lago e é cheio de mochileiros que fazem a rota Bolivia, Peru e Chile.  Pra todos os lados se ouve inglês e é comum ter placas bilíngües. Ao mesmo tempo em que há essa invasão de turistas, Copacabana conserva bem forte sua cultura. Foi o lugar em que eu mais vi índios nativos. Os índios Aymaras (mesma origem do presidente EVO) estão por toda a parte e nas ilhas do Lago eles ainda vivem de maneira mais tradicional. Depois do réveillon com “gringos” em Copacabana, fomos passar um dia na “Isla Del Sol”, o lugar mais insólito que conheci até hoje. Me senti em um daqueles filmes de Indiana Jones ou no livro “A Ilha Perdida”, de Julio Verne. Caminhamos por quase 1 hora numa trilha pelas montanhas, guiados por um indiozinho Aymara, em direção às ruínas de uma era pré Inca, há mais de 1500 anos atrás. Ele nos contou um pouco sobre as lendas e historias dos seus antepassados. É incrível como um lugar tão lindo e tão cheio de história, ainda é tão desconhecido pela civilização. Por um lado isso é muito bom, pois conhecemos a cultura como ela é e não como querem que ela seja, de maneira bem natural sem coisas artificiais ou construídas para turistas. Por outro lado, perde-se um pouco o conforto dos lugares preparados para os turistas. Às 21 horas não tinha um só lugar onde se podia comer. TODOS os restaurantes da ilha funcionam de acordo com o horário natural. Tudo fecha na hora em que o sol se Poe. Encontramos uma Aymara e ela topou abrir a vendinha dela para que pudéssemos comprar alguma coisa pra comer, aproveitamos e compramos umas cervejas quentes para tomar enquanto esperávamos o sono chegar . Copacabana me trás lembranças bem fortes até hoje. Tanto da parte boa, dos lugares lindos e interessantes, quanto dos apertos que passei por causa de altitude. O lago está a quase 4mil metros de altura. Nessa altitude o corpo demora muito mais a fazer digestão. Então você sente o café da manhã até a metade da tarde. Passei à base de sopa e sem conseguir comer carne. Sentia-me cheia todo o tempo mesmo não comendo nada todo o dia. Além da falta de ar e dores de cabeça comuns pela altitude. 
Apesar de tudo, o ano começou superando minhas expectativas.
   

Já pelo lado do trabalho, tudo deu muito certo também. Um dos projetos que a Fundação tem, é um acampamento para crianças e jovens com diabetes. Esse acampamento é feito para que eles saibam como viver melhor com sua diabetes. Esses acampamentos trazem uma perspectiva completamente diferente para a vida desses jovens, que normalmente, não têm condições e nem orientações para lidarem bem com a doença. O problema é que a Fundação não tem dinheiro para patrocinar esses acampamentos e passei parte do final do ano buscando financiamentos para esse projeto.  Há menos de 2 semanas da data marcada para o acampamento, não tínhamos um tostão furado para realizá-lo.  Só tínhamos apoios de algumas empresas com transporte e comida, mas o mais caro que era o alojamento, não estava garantido. E foi então que, de repente, de um contato que ninguém acreditava dar certo com uma Fundação Alemã, surgiu o financiamento e eles pagaram TODOS os custos do acampamento.  Ao final lá estava eu, mais uma vez organizando um evento.
Diferente do acampamento de Setembro, dessa vez eu participei de todo o processo desde o planejamento até a execução. E o trabalho com a “equipe Vida Plena” também foi muito enriquecedor. Foi muito gratificante ouvir o testemunho de crianças felizes pelo que tinham aprendido durante o acampamento. Senti minha mãozinha nesse impacto e mais uma vez percebi que as coisas mais importantes estão nos pequenos detalhes.
  
Abaixo o link do vídeo que o Thiago fez sobre o acampamento. Todas as brincadeiras tinham como tema, “viver bem com a diabetes”.  Campo Amigo 2010


Logo depois do acampamento chegou uma holandesa para completar a equipe Vida Plena. Cinco voluntários de 3 países diferentes. Mariana, Thiago e Eu do Brasil, Erica dos EUAs e Aukje da Holanda. Aprendi a trabalhar numa equipe multicultural. Nem sempre é fácil, mas com certeza é muito, muito divertido e enriquecedor.

Ao mesmo tempo em que me divertia e trabalhava na Fundação, me envolvi mais ativamente nas atividades da AIESEC em Bolivia. Desde minha viagem para Bueno Aires, cresceu uma vontade de trabalhar na AIESEC em outro país. Meu envolvimento com a AIESEC na Bolivia me deu conhecimento da realidade local e a vontade de fazer parte foi crescendo. Então decidi me aplicar para as eleições da diretoria nacional da AIESEC em Bolivia. Dois meses conversando com membros e ex-membros pra entender a historia e a realidade, conversando com amigos de outros países para ver os prós e contras, uma conversa com a mamãe pra ver se ela apóia e pronto. Em dezembro me apliquei e em meados de Janeiro ganhei a eleição de Presidente da AIESEC em Bolivia. 


Juntamente com a diretoria nacional, serei responsável pelo planejamento estratégico de todos os escritórios nacionais. Serei responsável pela qualidade do intercambio de todas as pessoas que vierem pra Bolivia, assim como eu vim. Serei responsável por  prezar por todos os Bolivianos que eu enviarei para fazerem intercâmbios em outros países e serei responsável por gerenciar a equipe nacional e os presidentes dos escritórios locais que de fato fazem tudo acontecer. Serei responsável por desenvolver jovens líderes e promover intercâmbios que irão melhorar a realidade local. Além disso, serei a representante da AIESEC em Bolivia perante a rede Global. A AIESEC está presente em 110 países e seus respectivos presidentes são responsáveis por traçar os direcionamentos que a organização dá para os seus 45 mil membros em todo o mundo. Para garantir esse alinhamento e direcionamento, fiz uma das viagens mais incríveis da minha vida. Fui para Tunisia participar do Encontro Internacional de Presidentes.  Porém, esse episódio merece um post exclusivo.
Meu time 

Espero que meu ano continue tão cheio de boas surpresas como está sendo até agora. Agora só a saudade da minha terrinha é que aperta. Mariana e Thiago já terminaram seu intercambio e voltaram para casa. Não sei como será meu trabalho daqui pra frente sem a referencia alegre e sempre disposta dos dois. 

Negócios Sociais

Postado por Babi Silva , sábado, 9 de janeiro de 2010 21:51

Por que tenho que escolher entre ganhar dinheiro ou melhorar o mundo?

Bons empreendedores criam empreendimentos fortes que geram lucros, que são investidos no bem-estar dos proprietários, acionistas ou reinvestidos na empresa para que essa gere mais lucro para enriquecer ainda mais os proprietários e acionistas. Essa é a lógica da economia e dos empreendimentos há vários séculos... Só que essa, é uma prática insustentável ecologicamente e socialmente.
Sustentabilidade, aquecimento global e todo tipo de estratégia para diminuir o impacto que a busca crescente pelo desenvolvimento causou ao nosso planeta no último século, virou assunto da moda nos últimos tempos.  Porém, como equilibrar consumo, desenvolvimento, viabilidade econômica e ao mesmo tempo ajudar a melhorar o mundo? Daí surge o termo “Negocio Social”.

Negocio Social, não é assistencialismo e nem responsabilidade social corporativa. É um empreendimento como outro qualquer, que deve ser economicamente viável e possui a finalidade de prestar um serviço ou produto à sociedade. Porém, é um serviço ou produto que “ajuda a melhorar o mundo” e todo lucro adquirido pelo negócio é reinvestido no próprio negocio para que esse se multiplique e ajude mais e mais pessoas. Descobri que é isso que quero da minha vida. Promover ou ter negócios sociais.  E é isso que estou fazendo aqui em Cochabamba, na Bolivia.

Faço parte do  programa de Intercambio do Social Business Ventures, uma iniciativa da AIESEC e da Artemísia, onde são selecionados e capacitados jovens AIESECos empreendedores de todo o mundo para trabalharem em empreendimentos sociais da América Latina e India. A seleção acontece mais ou menos a cada 6 meses e a cada dia novas ONGs e projetos entram no programa do Social Business Ventures. Atualmente há projetos no Chile, Argentina, Peru, Brasil, India e Bolivia. Para fazer parte do programa, é necessário ser membro da AIESEC.

Estou aqui na Bolivia trabalhando na Fundação Vida Plena, especializada em diabetes e trabalho no projeto de um laboratório móvel que levará prevenção, detecção e tratamento da diabetes para comunidades de zonas rurais. Centenas de bolivianos e indígenas morrem nas zonas rurais por causa das complicações da diabetes e outras doenças não transmissíveis sem ter o diagnóstico correto de sua morte.  Ataque cardíaco é colocado como morte desconhecida ou natural. Promoção de estilo de vida saudável e prevenção de doenças crônicas  são assuntos recentes e a Fundação está tendo um papel importante na disseminação desses assuntos entre as entidades de saúde de Cochabamba.

Ainda não há um laboratório móvel e meu trabalho inicial, foi  verificar a real viabilidade desse projeto. Fizemos uma parceria com a Universidade Columbia e no inicio de Janeiro chegaram 4 estudantes de mestrado que usaram o projeto como estudo de caso. Fizeram um baita estudo e concluíram que o projeto é sim, viável. Próximo passo, buscar financiadores internacionais e promover ações locais para disseminação da idéia e busca por aliados locais.

O grande benefício deste intercâmbio, além de todo suporte que há em todos os intercâmbios promovidos pela AIESEC, é o network criado por todos os intercambistas que estão nesse programa. Atualmente, são pelo menos 10 jovens, como eu, vindos de diferentes partes do globo, focados num mesmo assunto: Negocios Sociais. Claro que cada um trabalhando em um projeto, país e ONGs distintas. Porém, os desafios de se trabalhar em um negócio social, são quase sempre os mesmos e um sempre acaba ajudando o outro. 

Outra grande vantagem é a capacitação promovida pela Artemísia. São capacitações virtuais e presenciais. Em dezembro tive o prazer de voltar para o meu lindo Brasil por causa de uma dessas capacitações. Foram 4 intensos dias de capacitação num sitio próximo à São Paulo, com todos os participantes do programa da América Latina. Fiz amigos de pelo menos 10 países diferentes. De todas as conferencias internacionais que fui até hoje, essa com certeza, foi a que mais me impactou pessoalmente.  A metodologia do evento criou uma conexão especial entre os participantes e fico até hoje com uma pontinha de inveja dos reencontros que estão acontecendo periodicamente entre os participantes que moram atualmente em São Paulo.
 

Não sei se os Deuses estão mesmo ao meu favor, mas a conferencia do Social Business, além de ter sido no Brasil, foi poucos dias antes do Natal, o que me deu a oportunidade de aproveitar o recesso de final de ano em casa. Ah, home, sweet home... Como é bom voltar pra casa depois de um tempo fora. Realmente, passamos a valorizar cada pequeno detalhe.

Foi  meio estranho... Era como ser estrangeira em minha própria terra. Cada lugar visitado, cada sabor experimentado, cada experiência. Vivi tudo como se fosse um turista, como se tivesse acabado de chegar em um novo país e estivesse querendo conhecer e vivenciar cada pequena coisa. É estranho também estar em casa, sem ser de casa. É a primeira vez que moro longe de casa e voltar para lá não morando mais foi meio estranho.  Era como se meu quarto não fosse mais meu, minha cama, a vista do meu quarto não me pertencesse mais. Porém, foi muito bom sentir o aconchego do lar. As longas horas de conversas com minha mãe, os assuntos sem muito nexo com meu irmão, as programações de final semana, as historias de família...
Dirigi meu carro ouvindo musica alta, comi temaki e muita comida japonesa, comi tropeiro e todo tipo de feijão, fui ao samba, dancei carnaval no meio da rua, fui em butecos, bebi Brahma gelada e cachaça, revi muitos amigos, fiz festa, vivi cada segundo como se fosse o último. Num misto de boas vindas e despedida. É...deu pra recarregar bem as energias e voltar com tudo para Bolivia...

No final da viagem, já estava sentindo falta da tranqüilidade e dos lindos jardins de Cochabamba, do reggateon, do espanhol, do sanduíche trancapecho das islas, das pessoas... Coisa estranha essa é sentir saudade...


Nuestra Señora de La Paz

Postado por Babi Silva , quarta-feira, 16 de dezembro de 2009 12:03

A típica correria de final de ano me assombrou e não tive muito tempo de atualizar o blog nas ultimas semanas. Porém, no final do mês de Novembro e inicio de Dezembro fiz uma das viagens mais significativas pela Bolivia que fiz até agora e por isso vou puxar da memória e contar um pouquinho minhas aventuras em La Paz.

Visita Relâmpago à La Paz.
Estava super ansiosa para conhecer La Paz. Apesar de todos os avisos sobre o “mal da altitude”, não podia perder a oportunidade de conhecer a capital da Bolivia. Além disso, seria a primeira vez que iria viajar por ônibus na Bolivia...

A informalidade predomina na Bolivia. Até na hora de comprar passagem, a negociação (pechincha) é o que prevalece. O valor da passagem pode variar de acordo com o horário, o dia e seu ânimo na hora de negociar. Existem pelo menos 3 empresas e vários tipos de ônibus de Cochabamba para La Paz. Como ia viajar sozinha e era minha primeira vez, não pensei em economizar. Escolhi a empresa e o tipo de ônibus mais caros, na esperança de ter uma viagem mais tranqüila. Escolhi o Buscama, nosso Semi leito, da empresa Trans Copacabana. Mesmo assim, consegui baixar o preço de 90 para 60 bolivianos, menos de 20 reais =) .

E lá fui eu para o buscama. Dois andares e bonitão, pelo menos por fora. Quando entrei a primeira surpresa, além de parecer que nunca tinha sido lavado por dentro, o banheiro estava trancado e depois percebi que o ar condicionado também não funcionava. Água? Tinha até o compartimento próprio, mas estava vazio. Só me restou comprar água de um dos 20 ambulantes que entraram no ônibus gritando e vendendo inúmeras coisas. De lanterna que não precisa de pilhas para funcionar, até frango frito. Percebi que a água mineral é mais cara que a Coca-Cola até comprando de ambulantes. A garrafinha de 500ml de Coca-Cola custa 2,50 bolivianos, enquanto a garrafinha de água não sai por menos de 3 Bs. Ainda assim, estava bastante animada. Assim que o ônibus começou a andar, várias pessoas começaram a cobrir o chão com panos coloridos e deitaram ali mesmo, no corredor do ônibus. Três horas depois de muitas curvas e estrada estreita, fizemos a primeira parada.  Era uma pequena casa, onde haviam ambulantes vendendo sanduíches na porta. Procurei pela indicação de “Baño” parecia um labirinto, completamente escuro. Mesmo assim, decidi continuar seguindo as pessoas pra ver onde iria chegar. Depois de muitas curvas e longos corredores  cheguei numa portinha, paguei 1 boliviano e entrei. Havia buracos no chão e tambores de água. As pessoas pegavam baldinhos que estavam no chão, enchiam de água e entravam na casinha de madeira que tinha um buraco no chão, que seria o banheiro... Voltei para o Buscama e tentei dormir...

Oito horas depois do inicio da viagem, já com os primeiros raios de sol, cheguei à cidade de Nuestra Señora de La Paz. A incrível cordilheira dos Andes e seu gelo eterno, encheram meus olhos.  Desci do ônibus e percebi quão quentinho estava la dentro.  Minha cabeça estava doendo e não conseguia respirar direito... “ih, é o mal da altitude me atacando”, pensei.  Resolvi tomar um desayuno no terminal rodoviário mesmo e fiquei imensamente feliz quando vi que tinha chá de coca. Bom e velho companheiro para minimizar os males da altitude... Em pouquíssimos minutos estava pronta para começar minha expedição por La Paz. Tinha contatos de algumas pessoas de La Paz, mas só as encontraria na parte da tarde.

Resolvi então, conhecer  um pouco mais  a cidade sozinha mesmo. Peguei uma van e perguntei se iria pra Praça Principal (sempre é o melhor ponto turístico nas cidades da Bolivia), poucos minutos depois de subir à van, vi uma linda catedral e resolvi descer ali mesmo. Era a Basílica de San Francisco e logo reconheci um dos principais cartões postais de La Paz. A Basílica é grandiosa e muito linda. Junto a ela, dezenas de campesinos  ambulantes, vendendo tudo que é possível imaginar. Algumas crianças com rostos cobertos engraxavam  os sapatos dos transeuntes, logo percebi que por toda cidade é bem comum ver essas crianças com toca negra cobrindo todo o rosto, oferecendo seus serviços de engraxate por 5 bolivianos.
Segui caminhada e logo cheguei ao “Prado”, uma avenida cheia de cafés, teatros e museus. La Paz, assim como Cochabamba, também possui lindas praças e jardins floridos por toda parte... Entrei em uma agencia de turismo e lembrei-me do passeio por ônibus tour, que o Pablo tinha me dito que era ótimo. Resolvi arriscar. Nunca fui adepta a esses passeios, mas já que estava sozinha e não tinha feito meu dever de casa para saber os principais pontos turísticos, resolvi arriscar. Havia duas rotas (centro da cidade e Zona Sur). Resolvi ir pela Zona Sur, que é a zona baixa de La Paz que tem 2.500 metros de altitude. Realmente baixa, comparando-se aos 3.600 metros de altitude do restante da cidade.

“E a sua direita a casa presidencial”, ouvia pelo fonezinho, sentada no segundo andar do ônibus enquanto admirava a linda cidade. Uma coisa que me chamou a atenção foram as residências paceñas. A grande maioria delas não são pintadas e ficam aglomeradas nas serras da cidade... Às vezes , até se confundem com a cor amarronzada das montanhas. Parecem centenas de caixinhas grudadas nas serras.  Quarenta minutos depois do inicio do passeio, o ônibus para no parque do “Valle de La Luna”, um dos lugares mais incríveis que eu conheci na Bolivia até agora. Valeu a pena pagar os 15 bolivianos para entrar no parque. O Vale tem formações rochosas que lembram o solo lunar, daí o nome. Grandes estalagmites de várias cores que criam incríveis ilusões de ótica. Ficaria ali por horas se fosse possível, mas os 30 minutos da parada passaram sem eu sentir e logo ouvi o ônibus ligando seu motor e buzinando pra mim. Sai correndo e por pouco não perco o ônibus tour.

Depois do passeio, ainda tinha algumas horas antes do horário marcado para encontrar a galera. Voltei ao prado para almoçar. Dentre as opções de pollos e Burguer King, escolhi experimentar a comida em uma Chifa (mistura de comida chinesa e comida típica da cidade).  Logo depois fui para a PUC, a maior universidade da Bolivia, encontrar alguns membros da AIESEC. Depois da reunião fomos a um café e nessa altura do campeonato já estava cansada demais pra pensar em balada. Poderia voltar domingo pela manhã, mas decidi voltar no sábado a noite mesmo.  Na volta fiquei com preguiça de estudar as opções de empresas e tipos de ônibus. Acabei aceitando a primeira oferta de um dos ambulantes que vendiam passagens para Cochabamba por 30 bolivianos (menos de 10 reais) num buscama. Doce ilusão, porque de buscama mesmo só tinha o nome. Ah saudade do Trans Copacabana... Nossos ônibus convencionais seriam vendidos como luxo por ali... Cadeiras imundas que não inclinavam, banheiro trancado, sem água , pelo menos a janela abria pra entrar um ventinho, pessoas deitadas no chão... Estava tão cansada que nem me incomodei tanto com isso... Dez horas depois, fui despertada pelos gritos dos ambulantes que subiram na chegada do ônibus para tentar vender passagens para aqueles que seguiriam viagem até Santa Cruz de La Sierra. Pronto, doce Cochabamba...

Viagem rápida, mas bem marcante. La Paz possui inúmeras opções de turismo. Ainda voltarei para conhecer a pista natural de esqui mais alta do mundo: Chalcataya (5.300m de altura), o templo de Tiwanaku, o Lago Titicaca,  Los Yungas dentre outros. Enquanto isso, aproveito a mini visita de volta ao Brasil... Em breve mais novidades sobre meu pseudo retorno ao lar.


Terminal Rodoviário de La Paz

Catedral de São Francisco



Campesinos na porta da Catedral


Tradição e modernidade andam juntos - Campesinos no Prado


Valle de La Luna

Bárbara Cocha

Postado por Babi Silva , sábado, 14 de novembro de 2009 03:20

Eu, Bárbara Regina Coelho Silva, estou fazendo meu intercâmbio em Cochabamba na Bolívia, desde o dia 14 de Setembro de 2009. Estou aqui há 60 dias e vou ficar até fins de Março de 2010, no mínimo.

Alguns amigos me chamam de Bá, outros de Babi, durante a infância de Binha, no trabalho, por vezes, sou reconhecida como Bárbara Coelho, Bárbara Silva ou simplesmente Bárbara.
Bárbara que possui lembranças. Lembranças de infância, adolescência, escola, faculdade, amigos, família, amores, trabalho...

Lembro-me docemente de minha infância, a incrível infância da década de 80. Quando brincava com meu irmão, amigos e primos. Quando imaginava que a sala de estar da minha casa era na verdade, uma imensa selva cheia de aventuras e fazíamos grandes barracas com o cobertor da mamãe. Lembro que brincava de casinha com os bonecos do “Comandos em Ação” dos meus primos. Lembro-me de passar 2, 3 noites em claro tentando zerar SONIC 2 e passávamos horas decifrando as passagens secretas e encontrando vidas extras. Lembro-me de acordar ouvindo a Xuxa cantar, “quem quer pão, quem quer pão” e tomar café com ela, que tinha bandejas cheias de frutas, sucos e croissants enquanto eu, tinha meu delicioso pãozinho com manteiga e café com leite. Lembro-me das músicas e danças do Trem da Alegria, Balão Mágico(ta, sou velha mesmo e daí?!), dos coleguinhas de escola, do castelinho mágico que meu pai fez e que meu irmão e eu pintamos e decoramos com toda alegria. De passar as férias lendo revistinha em quadrinhos da Turma da Mônica. Não me lembro muito bem como conheci minha primeira melhor amiga, a Lívia, mas lembro de muitas, muitas aventuras que vivemos, das nossas brigas, choros e sorrisos e das nossas tantas conversas que, hoje estão mais raras, porém tão especiais quanto antes.


Lembro-me com alegria da mudança da capital para o interior de Minas. A descoberta da natureza e como ela é tão barata, farta e saudável. Descobri que verduras e frutas não vêm dos supermercados e sim da terra. Descobri que poderia ter bichos de estimação e que não precisaria me limitar aos cachorrinhos doentes, que teimava em escolher no Mercado Central e que não duravam nem 15 dias. Tive coelhos, ramsters, porquinhos da Índia, galinhas, gansos, perus, patos, gatos e também cachorros de estimação. Lembro-me dos medos, descobertas, amizades, inseguranças, aventuras e mudanças da adolescência. O primeiro beijo, o primeiro namorado, a primeira “nossa música”. Lembro-me do retorno duro para a “cidade grande”. Dos novos amigos do colégio.  Depois o primeiro emprego, o primeiro chefe, o primeiro salário, o primeiro “bem” comprado com o próprio dinheiro. A faculdade, os amigos da faculdade, as aventuras e descobertas da faculdade.

 Lembro-me das coisas boas e ruins. Conheço bem a minha história, minhas experiências e estou acostumada a ter pessoas ao meu redor que as conhecem também. Conheço (até certo ponto) meus defeitos, minhas qualidades, meus limites. Será??? Bom, conheço o que julgo que conheço. Da mesma maneira que as pessoas que convivem comigo também julgam me conhecer e agem a partir desse conhecimento prévio da minha história e das experiências que viveram comigo.

E agora no intercâmbio?


Ninguém me conhece. Ninguém sabe minha historia, minhas lembranças, às vezes nem meu idioma. Minhas expressões tão comuns em “minha terra” e que explicam uma situação ou sentimento em poucas palavras, são incompreendidas, quando não são ignoradas, por aqui.

Há algum tempo venho analisando sobre o que é a experiência de intercâmbio e em uma conversa despretensiosa, enquanto caminhava pelas ruas de Buenos Aires com James e Laís, começamos expressar um pouco nossas profundas análises.

Intercâmbio é a oportunidade que temos de “nascer” de novo. Criar e experimentar um novo EU.  Não sou mais a Maria que sempre foi tímida, a Joana que sempre falou demais, o José que nunca tirou notas boas na escola ou o Renato reconhecido como o “chato” da turma.

Durante o intercâmbio, podemos experimentar uma nova maneira de ser, sem sermos julgados ou sem ter medo de sermos julgados. E assim, podemos encontrar o nosso verdadeiro EU que estava lá dentro escondido e que não saía por medo e/ou por pré-conceitos estabelecidos por nossos amigos, familiares e colegas. Também pode acontecer de percebemos que o nosso antigo EU, é realmente o EU verdadeiro e vai prevalecer onde quer que estejamos. Porém, é a chance que temos de experimentar novos EUs e isso torna o intercâmbio uma incrível experiência de auto-descoberta.

Ao mesmo tempo, passamos a viver a história e a cultura de outras pessoas.  Semana passada, durante uma festinha na casa de um amigo daqui, lá pelas tantas, todos começaram a lembrar das coisas boas de infância... Das músicas que todas as crianças gostavam, dos programas de TV, das personagens, desenhos, das brincadeiras tão comuns entre eles e tão novos pra mim.

Eu, Bárbara Silva, lá das Minas Gerais do Brasil, comecei a relembrar danças, músicas, brincadeiras e histórias que eu não vivi. Eu, Bárbara Silva, me transformei em Bárbara Cocha, com lembranças e histórias de uma infância que não são minhas.

Há Sessenta dias, viajei para o Exterior do Brasil e encontrei meu Interior. Hoje valorizo minha história e percebo como cada experiência foi importante para criar a Bárbara que sou hoje. Porém, agora também me permito mesclar meu EU com outros EUs, com outras histórias e culturas.  A Bárbara com toda sua essência e valores continua lá, mas agora o sobrenome Cochabamba virá agregando, não só conhecimento, mas experiências e descobertas da Bárbara em outra cultura.

Um intercâmbio muda pensamentos, conceitos, planos, projetos e às vezes, até sobrenome, que pode não ser o oficial no passaporte ou RG, mas é o mais verdadeiro no momento.

Carinhosamente,
Bárbara Cocha


Foto tirada no meu Trainee Shower.Como um chá de Bebê, mas feito para intercâmbistas. Afinal, nem tudo dá para trazer na mala né.

Tempestade no La Plata

Postado por Babi Silva , terça-feira, 3 de novembro de 2009 03:26



Um gato preto cruzou o nosso caminho, quando estávamos indo em direção ao Buque (tipo de barco) que iria cruzar o Rio La Plata e nos levar de volta à Buenos Aires. Não sou supersticiosa, mas a maneira como, de repente, do nada, num lugar como aquele, aparece um gato completamente negro e cruza nosso caminho, unido ao grito de espanto de algumas pessoas, fez com que temores cruzassem meus pensamentos. Claro que pouco tempo depois, com a empolgação em ficar relembrando as boas surpresas da viagem, logo todos esqueceram o episódio do gato.

Quando chegamos ao barco, o tempo começou a virar. Embarcamos em meio à ventos fortes e trovoadas, ainda não chovia. Enquanto esperávamos o barco sair, nos divertíamos relembrando historias, contando causos e conversando. De repente, o capitão pede atenção e explica que, por causa da tempestade, poderíamos ter que passar a noite no barco, ele disse que esperaria mais 2 horas para ver se a tempestade melhorava. A galera adorou a possibilidade de passar a noite no barco. A partir daí, o barco se tornou nossa casa. 
A Natalia, presidente eleita da AIESEC BH para a gestão 2010, aproveitou para ensinar aos membros um pouco mais sobre Branding Experience da AIESEC. Tati pegou a câmera de Marcelo e começou a fazer um videozinho sobre nosso momento tenso/ansioso de esperar pra ver o que acontecia.Eu e Olivia aproveitamos para assistir o filme que estava passando. O filme me inspirou e peguei o meu diário de viagem para escrever um pouco.

Algum tempo depois, o barco liga o motor e se prepara pra sair.

Perai, a tempestade ainda não passou? Tá doido, capitão?! A tempestade ainda ta muito forte! Todos se entreolharam assustados e voltaram aos seus lugares. Um dos meninos grita: “Ai, o gato preto!!! Agora estamos ferrados!” A partir daí começou uma das viagens mais emocionantes da minha vida.
Para tentar relaxar, continuei escrevendo em meu diário todas as emoções e  percepções do momento. Abaixo minhas palavras:

Chove lá fora. Estamos presos no barco esperando a tempestade passar.

Está passando o filme, “Antes de Partir”. Nossa, não teria título melhor para um momento como esse... Antes de partir: Dois homens com câncer terminal decidem viajar pelo mundo, realizando os últimos desejos de sua vida. Viajar pelo mundo fazendo tudo que sempre quiseram. O que eu busco em meu intercâmbio? Porque estou aqui agora, tão longe de casa? Será o desejo de conhecer o mundo realizando todos os meus sonhos? Quantos sonhos...

Amanhã meu vôo de volta pra Bolívia sai às 8:00 da manhã. Se ficar a noite toda aqui no barco irei perdê-lo e serei obrigada há ficar mais tempo na Argentina. Será um aviso do destino? Talvez a oportunidade de viver um pouco mais Buenos Aires e conhecer lugares que ainda não conheci...
O barco liga o motor em sinal de que vai sair, mesmo com o tempo muito ruim.

Ai o gato preto... ele não sai da minha cabeça...
As comissárias de bordo começam a distribuir saquinhos de vômito para todos os passageiros. Todos, com olhares apreensivos pegam 1,2, 3 saquinhos, já prevendo o que poderia vir.
O barco começa a navegar. Um burburinho forte começa. Olho para os lados e o que vejo são olhares apreensivos. TODOS, não importa de onde vêm, sua historia, se são amigos ou desconhecidos. Todos comungam um mesmo olhar.

Uma turma de jovens mulheres conversam animadas, com risadas nervosas, tentando espantar o medo. Uma das comissárias sorri e diz a elas: Isso, mantenham o humor, vai dar tudo certo.

Olho pra TV e o  filme está parado. Cena paralisada do filme: Morgan Freeman (um dos homens com câncer) está deitado na cama do hospital com a mão estendida para Jack Nicholson (o amigo que também tem câncer). Os dois estão na mesma situação e mesmo assim, ele estende o braço em sinal de socorro e pedindo apoio ao amigo. Nós estamos no mesmo barco, com olhares apreensivos como que pedindo apoio uns aos outros.

A luz apaga, burburinhos aumentam, a luz acende... O barco balança muito, não dá pra ficar de pé...
Tati grita tentando animar a galera: Natália, você não queria uma montanha russa? Aí está!
Natália nem se move. Está com os olhos fechados desde que saímos. Como quem fecha o olho na Montanha Russa querendo que a brincadeira acabe logo.

Já temos uns 20 minutos de viagem. Um dos passageiros pergunta: Por que o filme parou?
O barco continua balançando muito. Olho para os lados e agora todos estão de olhos fechados.
Depois de tanto reclamar, o senhor tem seu filme de volta. Porém, ele está começando de novo.

Queria que fosse dia pra poder ver as ondas batendo contra o barco. Será uma imagem bonita?
Agradeço a Deus por ser noite e só sentir as ondas batendo contra o barco. Dá pra sentir as ondas batendo nas janelas bem ao nosso lado.  Acho que não iria gostar de ver essa cena...

Estou tremendo. Não sei se de medo ou se por causa do ar que ficou mais frio.
Pergunto a um dos comissários e ele diz que é para que as pessoas não passem mal...
Não passem mal? Como assim? Olho novamente para os lados e muitos já estão passando mal... o burburinho está diminuindo... Mas o balanço continua forte.

Já se passaram uns 50 min. Fui até o banco próximo de alguns dos meninos pra ver como estavam. Todos de olhos fechados. Matheus tenta se distrair conversando com a Tati. Muitos dos outros já passaram mal e a cada minuto mais um passa mal.
Quando começam a se sentir mal levantam a mão e o comissário logo trás um lenço úmido e coloca na testa. Marinninha pergunta pra que serve. Não sei, respondo, mas deve servir de algo, pois todos estão fazendo o mesmo.

Olho novamente para os lados e agora vejo a maioria dos passageiros com o lenço umedecido na testa. Lenços brancos. Como se fosse um pedido de desistência, uma bandeira branca pedindo rendição. Pedindo clemência e paz ao Deus Netuno.
Deus Netuno está mesmo furioso e continuamos a turbulenta viagem.

Agora o burburinho dá lugar ao silêncio. Só ouvimos o motor do barco, as respirações ofegantes em meio à pessoas passando mal.

Mais algum tempo, talvez 30 min, 1 hora. Não sei ao certo... O barco começa a diminuir a velocidade...

Todos levantam as cabeças tentando, em vão, ver além da escuridão das janelas. Os comissários sorriem satisfeitos. Chegamos.